27.6.13

We, the people



"We are here to make a difference, if we can".
Alimento a esperança com os gestos de gente anónima. E não interessa a língua em que falam, a cor da pele, a religião ou a orientação sexual. A solidariedade, a verdadeira, a que conta, a que é anónima, a que se sente cá dentro, essa não tem fronteiras.

18.4.13

A formiga e o carreiro

São cada vez mais. Noto isso, ao final do dia quando pego no carro para ir buscar as pequenas. São cada vez mais as pessoas que caminham, mais apressados ou mais lentos, em fila, pelo passeio que bordeja a estrada de dentro. Saem do metro, atravessam a linha de autocarros e árvores ainda a crescer, e alinham-se pelo passeio, metade terra batida, metade asfalto gasto, que os leva ao coração da cidade. E há gente de todas as cores, homens e mulheres, novos, velhos, crianças, de fato ou sapatos ténis. E são cada vez mais. Há um ano, seriam uma dezena, sobretudo mulheres de ar cansado a fazer contas de cabeça às horas. Mas agora, são dezenas, mesmo muitas dezenas, faça chuva ou sol, assim que a jornada termina. Calculo que tal como para mim o seu mês seja mais comprido que o salário, e que o carro fique ao abrigo da rua do bairro e o caminho se faça andando, a pé.

8.4.13

A canção da Bia

A Bia fala brasileiro. "É português", insisto. Que não, diz-me a pequena "a Bia fala a cantar, não é como nós!". A Bia tem sete anos acabadinhos de estrear e cabelo encaracolado em tom de caramelo. O tom de pele não engana e recorda a mistura étnica que se fez do outro lado do Atlântico. A menina pequena aprende as letras, ombro a ombro com o Jabel e o Jacabi, que vieram da Guiné, e a Sakuta, que ainda não percebi se é macaense ou se os olhos amendoados terão vindo de outras paragens.  No caldeirão de nações que é a sala de aulas da pequena, os meninos aprendem a ler e a corrigir o sotaque, e cá fora no recreio, onde todos os meninos são reis e princesas, não há muros ou fronteiras e entendem-se num idioma que só a infância consegue decifrar. A mais pequena lá de casa tem na Bia a melhor amiga, e hoje, enquanto esperávamos que as portas da escola abrissem, as meninas de mãos dadas, o Jabel e o Jacabi,  entoavam uma canção com o sotaque cantado de além-mar.    E eu, e o pai da Bia, o mulato de olhos doces com mais dois palmos de altura do que eu, olhámo-nos e, pela primeira vez, sorrimos.

3.4.13

Os olhos azuis da Teresa

Já foi cabeleireira "antes da crise", diz-me com um sorriso. Já foi cabeleireira e era vaidosa "mas agora, basta escovar o cabelo e pôr a bata", e ri. Antes, quando o ordenado esticava até ao final do mês, e os olhos azuis ainda não estavam carregados de olheiras, quando a pele brilhava e as mãos tinham unhas de cor, era cabeleireira. Depois nasceram os filhos, "primeiro o rapaz, que já tem 7 anos e depois a menina, fraquinha, coitadinha, está sempre adoentada. O que me vale é a minha mãe que dia sim, dia não, fica com ela em casa". E no cabeleireiro, onde entrou aos 16 e se fez mulher, não podiam esperar pelas doenças dos meninos. O cabeleireiro, no centro da cidade, de montra larga e ventre bojudo num permanente entra e sai de mulheres magras,  apressadas para reuniões importantes, envoltas num manto de perfume, dispensou-a. "E depois ainda tentei, mas era tudo à percentagem, e entre as horas de comboio e autocarro, mais o preço do passe e o que pagava para ter os meninos no infantário, não chegava o dinheiro nem as horas do dia", confessa enquanto arruma meia dúzia de bolachas luzidias que entrega no saquinho de papel. Já foi cabeleireira e agora embala pães e bolos, e avia sopas e bicas, e faz trocos e ri. Ri. "Tenho trabalho e saúde e os meus meninos são a luz dos meus dias". Saio a porta para o cinzento da rua e espanto-me, uma vez mais, com a simplicidade de quem se resigna à vida sem perder a alegria.

13.9.11

Make-up story

Meio-dia. O metro há muito que esvaziara a onda matinal de gente apressada. Entrei e sentei-me. Dois bancos mais à frente uma miúda. Achei eu. Ocupava 3 assentos com dois sacos gigantes que vasculhava freneticamente. De repente vejo-a tirar da amálgama um estojo de maquilhagem. E começa por aplicar a sombra. De longe apercebi-me de uma vasta gama de tons pálidos, e muitos pincéis. Depois o eyeliner. "Não é capaz!", pensei enquanto o metro se sacudia numa curva mais apertada. Enganei-me. Com gestos precisos de quem repete o ritual todos os dias, traçou um risco negro preciso que certamente lhe favoreceria o olhar. Depois o rímel, ou a máscara, como se diz agora, é mais chique (pelo que ouço diariamente numa secretária ao lado). Uma camada. Duas camadas. E agora as pestanas de baixo que o olhar quer-se carregado de negro e as pestanas lanzudas como as bonecas que se alinham nas prateleiras do Continente. E por fim o gloss (sim, já não se usa bâton). A viagem entre a estação inicial e a estação de chegada, para ambas, demora 20 minutos. A miúda, perdão, a rapariga já para cima dos 30, arrumou os sacos, ajeitou a saia e o penteado e colocou-se ao meu lado. E eu pensei "que pena, não ficou  bonita!".  E então senti-me bem na minha cara lavada, nas minhas unhas curtas sem verniz, por não ser, por não querer ser, a "estranha" Barbie  que me fez partilhar um raro momento de intimidade que não desejava.

28.4.11

Frescura

Os grelos são frescos. Os agriões são frescos. Os espinafres, os alhos franceses, as alfaces, os tomates... Andamos as duas, eu mais fresca e ela mais avançada na idade, a escolher legumes frescos. Andamos as duas e eu descubro que estamos a fazer o mesmo: a preparar o jantar de aniversário de cada marido nosso. Eu penso no arroz de grelos que lhe farei à noite, prato tão simples e tão favorito. E ela diz, com uns olhos muito mais frescos que os meus:
O meu marido nem sonha o jantar que lhe estou a preparar. Faz amanhã 74 anos e nem sonha a festa que vai ter.
Eu não conto nada que o momento é só dela. Todas nós estamos felizes, eu e quem a vê naquela alegria de gostar, tão pouco habitual naquela idade. Eu não sei quando se casou, não sei há quantos anos namora o marido, nem pergunto nada. Mas rezo para mim para ser assim, daqui a 33 anos.

14.2.11

Oh happy days!

 Tenho a certeza de que o que ele ouvia não era o Singing in the Rain, mas o "varredor" negro que hoje dançava agarrado à sua vassoura, aquele homem alto e esguio de sorriso aberto à chuva, dançava feliz. Eu parei com um sorriso tonto por ver tamanha alegria, por ver o seu riso e ali fiquei uns instantes a captar o ritmo de uma qualquer kizomba que só ele dançava, que só ele, nesta manhã fria, comemorava.